segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Coração de papelão


Devido a minha falta de tempo, deixo mais um poema de minha autoria para manter o blog em movimento. Este poema, um dos meus prediletos, mostra que nunca devemos deixar de lado a criança que há dentro de cada um de nós, pois é esta criança que traz significado e entusiasmo pela existência. E lembre-se sempre de que o mais infantil dos adultos é aquele que ignora a criança que há dentro de si, afinal, a infância é só uma fase, mas ser criança é algo eterno.


Coração de Papelão

É divertido ser criança
Com um pedaço de papelão
E uma tesoura que alcança
A forma que nasce no coração.

É engraçado ser criança
Quando o amor é confiança,
Quando um sorriso é esperança
E quando a saudade é uma lembrança.

É triste deixar de ser criança
Quando o amor vira esperança,
Quando o sorriso é uma lembrança
E quando há saudade da confiança.

Quando o resquício da solidão
Bate à porta do coração
Há a triste sensação
De que o mundo é de papelão.

O segredo dessa lição
É ter uma criança no coração.
Basta ter uma tesoura na mão
E um sonho na imaginação.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Ser criança em 1994


Há 20 primaveras atrás chegava ao fim um dos anos mais divertidos e importantes da década de 1990, que foi o "anão" (ou seria anaço?) de 1994. Quem foi criança nesse ano certamente deve ter tido muitos motivos para não ter se esquecido dele - isso tanto é verdade que eu tive que dedicar um post inteiro só para falar sobre ele.

Pois bem, eu comecei o ano de 1994 com 10 anos de idade e o fechei com 11, portanto, esse ano marcou praticamente o início do fim da minha inesquecível infância. A transição da infância para a adolescência começou a se dar nessa época para mim. Isso, por si só, ajudou a tornar o ano de 1994 mais relevante para mim - mas para esse ano ter sido tão especial, muito mais precisou ocorrer durante os seus 365 dias. Para começo de história, vimos o controle da inflação no país com a chegada do Plano Real no Governo Itamar Franco. Isso mudou radicalmente a forma com que víamos o dinheiro. A nossa mesada passou a ter um valor estável e passamos a viver numa das eras de maior estabilidade econômica do país.
Porém, nem tudo foram flores, pois tivemos a morte do ídolo Ayrton Senna, que foi homenageado posteriormente pelos jogadores da seleção brasileira ao conquistar o tetracampeonato de futebol. E falando em futebol, o Brasil finalmente havia vencido uma Copa após 24 longos anos de jejum. A festa pelo título foi inédita para muita gente e aumentou ainda mais a euforia pelo esporte, pelo menos para mim. Foi a partir de 1994 que eu comecei a me interessar de verdade por futebol e comecei a jogar futebol de botão, a jogar pelada na escola, a colecionar álbuns de figurinha e a acompanhar os campeonatos nacionais com mais atenção.
Tivemos também a eleição presidencial, onde FHC venceu no primeiro turno e conhecemos um tal de Eneas, candidato que ganhou milhões de votos apenas falando o próprio nome na televisão.


Quem foi criança nesse ano também teve muito o que assistir, como a estreia dos Cavaleiros do Zodíacos na TV Manchete, a TV Colosso e o clássico eterno da Disney: O Rei Leão. Brinquedos, jogos e videogames também faziam sucesso mais ou menos na mesma proporção. Naquela época, as crianças ainda tinham vontade de ter um Super Nintendo e um brinquedo não eletrônico, como um autorama, por exemplo - diferentemente de hoje, onde os aparelhos eletrônicos jogaram para escanteio brinquedos como Lego, Playmobil, Comandos em Ação e Barbie. E falando em videogames, games como Sonic 3 & Knuckles, Donkey Kong Country, Doom 2, Warcraft, Streets of Rage 3, Mortal Kombat 2, King of Fighter '94 e Killer Instinct foram lançados também neste mesmo ano, sendo imortalizados décadas depois. Os computadores pessoais estavam começando a se tornar acessíveis para a classe média e a internet estava começando a dar os seus primeiros passos importantes no Brasil.


Em 1994 também tivemos outras coisas bacanas, como aquele comercial da Sadia de 50 anos, os comerciais toscos do Tele Amizade, as Olimpíadas do Faustão e a estreia de filmes como O Máscara e Debi & Loide, que fizeram a alegria da criançada. Enfim, 1994 foi um ano inesquecível. E como não podemos voltar no tempo para reviver aquela época incrível, nos restam as histórias e a saudade que aquele ano deixou.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Reflexões sobre a guerra 3 - A Última Noite de um Homem


Para terminar a trilogia das minhas poesias sobre a guerra, apresento então o poema A Última Noite de um Homem. Talvez este poema - escrito em versos brancos e livres - seja o mais profundo de todos por mostrar como uma guerra destrói o lado humano das pessoas e também como, antagonicamente, o amor é único sentimento capaz de nos ressuscitar da nossa 'morte em vida'. Assim como os outros poemas, ele é um protesto contra a violência e ao mesmo tempo uma forma de dizer que a felicidade pode estar nos pequenos gestos, especialmente naqueles que menos prestamos atenção.
Boa leitura.


A Última Noite de um Homem

Era noite.
A cortina de vapor
Descobria sensualmente
A lua cheia no céu.
Os olhos da minha mulher amada
Reluziam incessantemente
E os nossos lábios se tocaram
Como se fosse a última vez.
Transcendíamos ao infinito
Cobertos por um manto de ternura
Que enlaçava nossas almas,
Equilibrando a mais sublime
Equação do amor.

Durante a despedida eu notei
Que suas lágrimas eram como
Cascatas abundantes
De uma fonte interminável
Que percorria os rios da alma.
Tantas promessas, tantos sonhos,
Tantas juras de amor em vão...
Aos prantos
Ela suplicava por uma promessa
Eu somente lhe disse:
- Adeus, querida.
Acho que, naquele instante,
Eu havia a perdido para sempre.

Quepe, farda e fuzil.
Em marcha deixei minha pátria,
Vendo a mesma despedida se repetir
Entre meus valentes irmãos
Que choravam sob o hino nacional.

Diante de um estandarte hasteado
Juramos honrar
As lágrimas dos heróis patriotas.

Dias após,
Meus pés pisavam em terras frias.
Um calafrio de medo e insegurança
Era trazido pela brisa crua e gelada.
Diante daquela atmosfera de chumbo,
Meus olhos relatavam
A mais pura selvageria do mundo.
Cadáveres estraçalhados
Saltavam entre os escombros
E trincheiras de corpos humanos
Denotavam  o ar necrótico
Daquele ambiente repugnante.

A carnificina já durava dias
E meu corpo implorava
Por um longo descanso.
Cadáveres desmembrados,
Carbonizados e desfigurados
Eram empurrados em sacos pretos.
Médicos suturavam feridas horrendas,
Fuçando o nauseante acampamento
Atrás da escassa morfina.

Tínhamos algumas míseras horas
Para tentar dormir.
Quando tentávamos, não conseguíamos
E quando pensávamos ter conseguido,
O pesadelo nos perseguia.

Nossa única refeição do dia
Era uma insípida ração enlatada
Ou uma carne crua que fedia
Mais que o perfume dos defuntos.

Aqui, nesse inferno,
A saciedade
Era uma sensação desconhecida.
Além de toda dor e desconforto,
Ainda tinha que aturar
As ordens do sargento mandão
E de todos que o sobrepujavam.

Esses animais desumanos
Tratavam as mulheres da pátria alheia
Como se fossem cadelas vira-latas.
Eles riam como hienas pervertidas
De suas monstruosidades.

Ah! Há quanto tempo
Não sinto o calor de uma cama.
Um dia achei um colchão velho
E lembrei da minha querida mulher...
Como as coisas teriam sido diferentes
Se eu não tivesse me alistado.

Diante de todo horror e brutalidade,
Minha única certeza
É de que não existia felicidade
E que esse mundo era um inferno
Cheio de ódio e desgraças.
O ser humano era um câncer
De si mesmo.

Sem ver mais moral ou ética
Não tive mais discernimento
Para diferenciar
O certo do errado.
Tudo que aprendi de certo
Era errado
E tudo que julgava ser errado
Era a própria lei.

Já na iminência da insanidade,
Fui metamorfoseado numa pedra.
Tornei-me duro e frio
Como uma máquina de matar.
Não tinha mais sentimentos.
Não conseguia mais sentir
Ódio dos meus inimigos,
Nem compaixão
Pelas crianças mutiladas.
E no meio desse estado de demência,
Sentia como se tudo ao meu redor
Estivesse me dando adeus.

Em mais uma incursão
Eu sentia novamente
Que o fim não parecia distante.
Eu juro que vi a morte
Em vários lugares,
Vinda de várias direções.
Mas armei-me de bravura ao lembrar
Que deveríamos honrar nossas fardas,
Nossa pátria
E nossos generais.

No meio da fuzilaria sem fim
Eu tropeçava horrorizado
Nos meus colegas trucidados.
Eles caiam um a um
Em um massacre implacável.
E, em meio ao inexaurível desfile
De projéteis no ar,
Um metal gelado
Atravessou a minha carne.

Quando vi meu tórax ensangüentado
Já nem sentia mais dor.
Caído no chão
Como um porco abatido,
Eu olhava para a lua reluzente no céu.
Ela brilhava soberana
Como na última noite
Que estive com a minha querida.
Eu não mais ouvia
O que os meus colegas diziam
E então fechei os olhos
E tive um belo sonho.

Em uma linda noite,
Eu valsava com a minha querida
Ao som de uma alegre
Seresta de amor.
Eu via a lua brilhar
Via também homens, mulheres,
Velhos e crianças,
Todos sorrindo felizes
Num imenso salão.
Então ali tive todo tempo do mundo
Para dizer tudo que eu sempre quis
À minha adorável mulher.

Eu lhe disse umas palavras doces
E entreguei-lhe uma bela rosa
Que brotava num canteiro, dizendo:
- Eu te amo, querida.

Foi ali que percebi
Que a vida pode ser bela
E que existem, apesar de tudo,
Sentimentos generosos
De bondade e respeito
Que engrandecem os homens.

Sei que não posso voltar no tempo
E sinto que a chama da minha vida
Está prestes a se apagar.
Mas aqui, no meu leito de morte,
Aprendi a lição que tanto teimei
Em não aprender.
A valorizar os pequenos detalhes
E cada precioso instante
Que a vida nos oferece.

Descobri que a beleza da vida
Está nos gestos mais simples,
Seja num pedido sincero de desculpa,
No sorriso de uma criança
Ou nas lágrimas de felicidade
De uma mãe que vê seu filho nascer.
Também aprendi
A não ver mais a felicidade
Como a sombra de uma utopia.

Abri meus olhos mais uma vez
E vi a lua se apagar  aos poucos,
Mas eu estava realizado em saber
O quanto a vida é bela.


A seguir, os links para os demais posts dessa série de poemas sobre a guerra:

Reflexões sobre a guerra 1 - Memórias de um sobrevivente
Reflexões sobre a guerra 2 - Diário de Guerra
Reflexões sobre a guerra 3 - A Última Noite de um Homem

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Reflexões sobre a guerra 2 - Diário de Guerra


Continuando a trilogia de poemas que escrevi sobre a guerra, segue o segundo deles, chamado Diário de Guerra. Similar ao primeiro, ele conta em primeira pessoa o ponto de vista de um combatente que relata a angústia de sobreviver aos horrores de um conflito.


Diário de Guerra

A tomada foi perfeita.
Tivemos algumas baixas,
Mas o território está dominado.
Antes de partimos para o próximo,
Tomaremos nossas anfetaminas
E engoliremos nossa ração.

Que saudades do papai,
Das histórias que o vovô contava,
Da torta de ameixa da vovó
E dos carinhos da mamãe.
Também sinto saudades
Do meu lar, das minhas coisas,
Dos meus amigos...da minha vida.

Estou cansado, com sono e com frio
E temos que partir amanhã cedo.
Odeio esta maldita guerra!
Odeio mesmo! Odeio tudo!
Quero voltar para casa
Ou morrer logo de uma vez.

Foi uma batalha difícil.
Perdi muitos companheiros
E outros tantos estão mutilados.
A morfina não acabará
Com a nossa dor.
As feridas talvez nunca fechem
E talvez nunca mais eu seja o mesmo.

Há meses não sei o que é conforto
Nem o que é prazer.
Às vezes sinto uma solidão tão profunda
Quanto o vazio em meu coração.

O cheiro aterrorizante da morte
Exala de todos os cantos.
A cada explosão
Vidas se vão,
Ecoando o terror
De um mundo sem amor.
Sei que é triste dizer, mas
Os mortos são os únicos privilegiados.

Por que tudo isso?
Para quê matar?
Aquele homem poderia ser meu amigo,
Poderia ter uma família, um sonho...
Bobagem! Não! Não!
Não sei mais o que é certo ou errado.
Este não é meu lugar.

A face descarnada do cadáver
Revela a angústia desse pesadelo.
Matar é meu dever
E morrer é o meu destino.

Cansei desses espinhos no meu rosto
E dessas bolhas nos meus pés.
Meu ombro é um hematoma só
E esse lugar maldito
É a prova de que o inferno existe.

Estamos a caminho da batalha decisiva
Não sei se sobreviverei dessa vez.
Queria acreditar que Deus existe
E pensar algo de bom.
Os rifles estão engatilhados
É hora de honrar a farda novamente...


A seguir, os links para os demais posts dessa série de poemas sobre a guerra:

Reflexões sobre a guerra 1 - Memórias de um sobrevivente
Reflexões sobre a guerra 2 - Diário de Guerra
Reflexões sobre a guerra 3 - A Última Noite de um Homem

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Reflexões sobre a guerra 1 - Memórias de um sobrevivente


Não acredito em reencarnação, mas, se de fato ela existir, tenho a impressão que já fui um soldado que combateu em alguma guerra no passado. Afirmo isso porque sempre tive, desde criança, uns déjà vus inexplicáveis envolvendo cenas de guerra. Entretanto, independentemente desses déjà vus bélicos serem algo espiritual ou mera alucinação do meu cérebro, eles acabaram me servindo de inspiração para escrever diversos poemas sobre o assunto. O interessante é que muitos desses meus poemas relatam justamente o sentimento de angústia e mal-estar que me assolavam quando eu tinha esses estranhos déjà vus. O ponto em comum entre todos os poemas que escrevi sobre este tema está no fato de que a guerra sempre é vista como uma das invenções mais estúpidas da raça humana, porque numa guerra nunca há vencedores: todos saem perdendo. Talvez daí tenha nascido a minha postura pacifista e diplomata que carrego até hoje com tanta convicção.

Enfim, ao invés de escrever um post com minhas reflexões pessoais sobre a guerra, eu preferi publicar três dos meus melhores poemas sobre o assunto, cada um em um post, onde eu tento mostrar porque a diplomacia é sempre melhor que a guerra. O primeiro desses poemas chama-se Memórias de um Sobrevivente. Ele, assim como os demais, é fictício e relativamente extenso, mas é um poema conciso, escrito quase em prosa, relatando o ponto de vista de um combatente que deixou as suas recordações escritas num diário. O poema segue em azul abaixo. Para os que curtem poesia, boa leitura.


Memórias de um Sobrevivente

Não sei se um dia
Alguém lerá este diário,
Mas se alguém o encontrar
E conseguir entender
Minhas letras rabiscadas,
Peço para que ensinem a seus filhos
A nunca promoverem uma guerra,
Porque ela destrói
Aquilo de mais belo que Deus criou:
A vida.

Em um dia qualquer
Durante a campanha de nossas tropas,
Encontrei este caderno entre os escombros.
Então eu o tomei como um diário
Logo ele acabou se tornando um amigo,
O único com quem eu podia
Desabafar e dividir as minhas angústias.

Eu não me recordo bem como foram
Meus primeiros dias nesse conflito.
Lembro, apenas, que no começo
Eu sentia um mal-estar constante.
Lembro que eu vomitava
Sobre os pedaços de seres humanos
Espalhados em mares de sangue sem fim.
Agora, não.
As náuseas se foram
Junto com o lado humano
Que acho que ainda havia dentro de mim.
Descobri sem querer
Que a raiva é mais útil que o desespero.

Há uns cinco dias foi terrível.
Eu estava queimando de febre
Em plena frente de combate.
E aquela chuva gelada
Mais parecia chumbo derretido
Salpicando nas minhas costas.
E para piorar,
É que entre o ruim e o pior,
O pior sempre acabava acontecendo.

Bah! Vida maldita!
Será que esse sofrimento tem fim?
Eu me pergunto todos os dias
Quanto tempo mais
Ainda posso agüentar esse tormento.

Acho que desaprendi a sorrir.
No começo a gente sente muito ódio,
Depois, muita depressão.
E se a morte não nos pegar,
Esse ciclo fica se repetindo:
Ódio, depressão, ódio, depressão...

Por quê?
Por que quando as coisas
Mais precisam dar certo,
Elas sempre dão errado?
Estou exausto
De ver tantas pessoas mortas,
Tantos corpos empilhados
E tanto sangue derramado.
Se Deus deu inteligência ao homem,
Então como explicar esse genocídio?
Eu queria entender o sentido da vida,
Se é que a vida tem algum sentido.

Ontem fiz aniversário,
Mas ninguém sabe,
Ninguém quis saber,
E eu nem sei por que
Estou pensando nessa idiotice.
O que querer?
Presentes? Parabéns? Felicitações?
A felicidade é uma palavra extinta
Do meu desenxabido vocabulário.

Eu não consigo me sentir mais humano.
Às vezes não consigo
Nem mesmo me sentir vivo.
E o maior paradoxo é esse:
É que mesmo vivo,
Eu me sinto morto.

Desde pequeno eu aprendi
Que os homens não choram,
Mas quando eu me sinto
Um animal desolado,
Minha fraqueza se torna mais forte.
Penso até que isso seja bom,
Pois as lágrimas fazem
Com que eu me sinta mais humano.

Não há nada bonito ou construtivo
Em uma guerra.
Aqui estamos sempre no limite
Físico e psicológico,
Sentindo-nos um farrapo
Imundo, ferido, esfomeado e cansado.
E quando os nossos limites
São ultrapassados,
Aí vem a loucura.
Por isso,
Muitos dos meus compatriotas
Estavam enlouquecendo.
E eu também, eu acho.

Certo dia, quando eu estava estourando
As bolhas dos meus calcanhares,
Tive a nítida impressão
De ter escutado a voz da minha mãe
Chamando o meu nome.
A parte mais difícil para um combatente
É a de tentar manter a sanidade mental.

Vez por outra,
Nos raros momentos de descanso,
Converso umas bobagens
Com alguns colegas
E noto que a frivolidade
Diminui o medo e a ansiedade,
Mas não traz conforto ou prazer.
Aliás, o prazer é uma sensação distante
Que se limita a uma tragada
Num cigarro sem marca.

Eu não tenho medo de morrer.
A morte não é uma preocupação,
A morte é um conforto.
Todo mundo tem que morrer um dia,
É por isso que eu não ligo para morte.
Pelo menos eu vou morrer
Fazendo a coisa certa,
Acreditando em algum ideal
E defendendo a minha pátria.
Se bem que eu não gostaria de morrer
Sem ter feito tudo que gostaria na vida.

Só queria pensar que tudo isso acabou
E voltar de vez para casa.
O que eu mais queria agora?
Era ter coragem de me olhar no espelho,
Comer uns cinqüenta quilos de chocolate,
Dormir por três meses seguidos,
Passar o dia inteiro relembrando
O doce prazer de amar
E olhar para as estrelas cadentes no céu
Sem pensar que são balas traçantes.

Eu imagino quantas famílias
Já perderam seus entes queridos
E o que todos nós temos a ganhar
Com os frutos podres dessa guerra.
Eu me sinto um mero peão
Avançando cegamente num tabuleiro,
Esperando bravamente a próxima ordem,
Seja para matar ou para morrer.

Acho que a cena mais dura
Que presenciei nesse conflito
Foi quando vi os civis
Investindo contra nós.
Eu não estava preparado
Para matar crianças.
Mas o que está em jogo aqui
Não é o preparo, é a sobrevivência.
Antes de sermos soldados
Somos, sobretudo, seres humanos.

Todos os dias peço perdão a Deus
Por ter sido tão atroz
Mas era esse o meu dever.
Ainda que a culpa pese uma tonelada
Tenho de ser leal ao meu brasão.

A missão final da nossa tropa
Foi de proteger a fronteira.
Embora tivéssemos uma base forte,
Temíamos que nossos inimigos
Usassem armas químicas.
Eu só pensava na minha mãe
E nos cuidados e nos carinhos
Que ela tinha por mim.
Eu só queria abraçar a mamãe
Mais uma vez
E dizê-la o quanto
Ela foi importante para mim.

Aquela última batalha foi a mais sangrenta
Que presenciei em toda a guerra.
Os inimigos nos atacavam por todos os lados
Com tanques blindados, artilharia pesada 
E uma poderosa infantaria motorizada.
Saraivadas de tiros e explosões delirantes
Tornavam tudo confuso e sem sentido.
Lembro de sentir minha farda encharcada,
De tanto sangue alheio que jorrava.

Os gritos aterrorizantes
E todas aquelas vísceras expostas
Chegavam a dar tontura.
E acho que foi numa dessas
Que algo explodiu perto de mim.

Quando acordei na enfermaria
Não sentia mais minhas pernas
Nem entendia de onde vinha
Aquele zumbido alto nos meus ouvidos.
Quando devolveram o meu diário
Eu logo voltei a escrever
Sobre as pautas ensangüentadas
Tudo aquilo que ainda me recordava.

...

Essa guerra terminou,
Mas muitas outras continuam
E muitas outras ainda virão.
Mesmo com o fim da guerra,
Eu guardei comigo, por todos esses anos,
Este meu velho diário.
Escondi o caderno numa gaveta
Por não sentir mais vontade de escrever.
Mas um dia pensei em deixar um recado
Para as futuras gerações.
Com o meu velho diário de volta à mão,
Eu decidi terminá-lo de escrever.

Como sobrevivente,
Hoje eu posso dizer que
Ninguém, jamais,
Volta vivo de uma guerra.
Ou você volta morto de corpo,
Ou você volta morto de alma.
E não estou falando isso
Só por ter perdido as minhas pernas
E a minha audição.
Mas por ter perdido a vontade de viver.

Alguns sobreviventes
Têm a sorte de renascer
Eu acho que morri e renasci
Por várias vezes.
E não foi só naquela guerra.
É como se cada dia da minha vida
Fosse uma nova chance que Deus me dá
Para que eu possa renascer
E buscar o meu melhor.

A cura para guerra é o amor.
Foi ele que me fez renascer
Por todas essas vezes.
Não sei se posso
Generalizar isso para todos,
Mas foi assim que aprendi
Que um gesto de perdão
Pode funcionar melhor
Que um tiro de fuzil.
- Muita paz em vossos corações.

A seguir, os links para os demais posts dessa série de poemas sobre a guerra:

Reflexões sobre a guerra 1 - Memórias de um sobrevivente
Reflexões sobre a guerra 2 - Diário de Guerra
Reflexões sobre a guerra 3 - A Última Noite de um Homem

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Qual era a verdadeira face de Jesus?


Numa pesquisa rápida de imagens no Google, eu fui buscar uma "foto" do rosto de Jesus Cristo para ilustrar um post, porém, me deparei com uma quantidade tão grande de rostos diferentes da mesma pessoa, que fiquei em dúvida sobre qual deles representa o verdadeiro Jesus. É impressionante como o semblante de Jesus varia de uma representação para a outra. Em umas imagens ele aparece loiro com olhos azuis, em outras aparece moreno com olhos e cabelos castanhos e em algumas outras aparece de forma totalmente diferente. O que me deixa curioso com relação a isso é sobre como os fiéis vão fazer para reconhecer o verdadeiro Jesus no Juízo Final, já que o retrato falado dele difere radicalmente de uma imagem para outra. Afinal, será que existe algum meio de reconhecê-lo?

Black Jesus: Por que não?

Todos nós sabemos que não existem fotografias de Jesus, o máximo que nos aproximamos da imagem supostamente real do Salvador é a do Santo Sudário, que teve sua autenticidade contestada até mesmo pelos próprios cristãos. Então, no fim das contas, nenhuma imagem é fiel, porque Jesus certamente deve ter sido muito diferente fisicamente da imagem europeizada que deram a ele nas pinturas, nas esculturas e nos vitrais das catedrais. Isso, apesar de parecer uma bobagem, leva a dilemas raciais, porque se Jesus tivesse traços orientais, por exemplo, certamente criaria um choque cultural com o ocidente. Imagino o tamanho da decepção de um fiel europeu ao se deparar com um Jesus negro...


Eu acredito na existência de um Jesus histórico, sem qualquer ligação divina ou envolvimento com religiões. Há quem acredite que ele nunca existiu, mas existem evidências históricas mais ou menos confiáveis que apontam a existência de um homem chamado Yeshua, que teve uma grande influência política na mesma região e na mesma época que o Jesus bíblico viveu. O fato é que nós nunca saberemos qual foi a verdadeira face de Jesus (ou Yeshua). Azar dos crentes, porque se um pseudo Jesus especialista em ilusionismo der uma de profeta, muita gente vai acreditar que Jesus realmente voltou. Ô, coitados!

Prove agora que ele não é a cara de Jesus!

domingo, 30 de novembro de 2014

Ver-te-ei em Algum Lugar no Paraíso


Alguns leitores deste blog devem estar se perguntando por que tanta demora em publicar novas postagens, e a resposta é simples: total falta de tempo de seu administrador. Há vários temas interessantes a serem abordados neste blog, mas como não disponho de tempo suficiente para divagar sobre eles, vou deixar então um poema escrito por mim mesmo há sete anos só para não deixar o blog parado por muito tempo. Este poema é um dos meus prediletos e chama-se: Ver-te-ei em Algum Lugar no Paraíso. Ele fez parte de uma coleção de poemas que inscrevi num concurso de poesia, recebendo licenciamento aberto da Creative Commons.
O poema fala sobre a angústia de um homem que perdeu a sua amada de forma trágica logo após discutir com ela. O poema sintetiza a amargura e o arrependimento de ver sua amada morrer em seus braços após ser atingida por uma bala perdida. A essência deste poema serve para mostrar, mais uma vez, que devemos amar as pessoas como se não houvesse amanhã - e que a ira passa, mas a saudade de perder alguém que amamos dura para sempre. Segue o poema na íntegra:

Ver-te-ei em Algum Lugar no Paraíso

As chamas inebriadas deste amor sinuoso
Cessavam-se, profanamente,
Em um profundo vale de amarguras.

Ao proferir-te palavras de rancor,
Gritou em mim o triste, forte e evidente remorso
De um coração vulnerável e sentimental:
- Perdoa-me!

De ti não ganhei resposta,
Apenas o estrondo abrupto
De uma porta que fecharas com violência.

Meus pés te seguiram rua afora
E um estouro ecoou pelos jardins.

Quando corri, quase cego, ao teu encontro,
Vi teu semblante em pálido desespero
Quando um impreciso, insensível, esquálido
E desencontrado chumbo te abateu no peito.

Com teu sangue derramado em meus braços
Não quis acreditar que tu eras mais uma
Inocente, frágil, indefesa e indiferente
Vítima de alguma bólide de arcabuz
Vinda de uma canhestra mão torta.

Quando o nosso curto, insano e doloroso diálogo
Transformou-se num monólogo,
Minha alma estava despedaçada
E eu declamei, aos prantos,
Minha doce, fiel, amável e meiga mulher:
- Ver-te-ei em algum lugar no paraíso...

Mesmo que seja da mais obscura tumba
Ou do mais ardente abismo de fogo:
- Peço-te perdão.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Detonando os argumentos dos reaças


O que mais escutei da boca dos reacionários nesses últimos meses foram frases do tipo: "O Bolsa-Família é um programa populista (ou uma bolsa-esmola)", ou que "Os médicos cubanos são espiões comunistas" ou ainda que "Fazer justiça com as próprias mãos é legítima defesa". Então vamos conferir a veracidade desses argumentos para saber o nível de coerência dos reaças:

Fonte: Notícias do Terra

Fonte: Infomoney

Fonte: Infomoney



Fonte: Yahoo Notícias


Fonte: BBC Brasil


E agora, reacinhas? Quais são seus argumentos diante desses fatos?

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O legado da direita


O resultado dessas eleições - apesar de ter contrariado a minha previsão de vitória do PSDB - não me deixou alegre e tampouco triste. O PT, apesar de ser um partido menos pior que o PSDB (na minha ótica), está longe de ser um partido ideal. Achei a vitória do PT muito menos catastrófica que um possível retrocesso tucano, mas ainda estou insatisfeito, porque o PT não representa o meu ideal político. Em todo caso, tenho que reconhecer como oficial a vitória do PT, porque ela foi legítima e democrática - fato que nem todos estão aceitando. Ora, se tem uma coisa que me impressionou no final dessas eleições foram as reações beirando a insanidade de diversas pessoas insatisfeitas com o resultado da escolha presidencial. E, não por acaso, muitas dessas pessoas são (conscientes ou não) de direita. Ah, a direita...

A direita fazendo direitices

A direita brasileira e a democracia
A história do Brasil é repleta de golpes de Estado. Para começar, a própria Proclamação da República veio através de um golpe dos militares. E tivemos outros golpes, como o Estado Novo e a Ditadura Militar. E adivinhe quem esteve por trás desses golpes de Estado? Ela mesma: a nossa "querida" elite. E, por excelência, a elite brasileira sempre foi individualista e perpetuadora de diferenças, colocando-se à direita política. O inconformismo que vemos hoje com a vitória do PT nas urnas é um reflexo dessa velha direita que nunca se conformou em ficar tanto tempo longe do poder. Ideias insanas como a divisão do Brasil, separatismo, um novo Golpe Militar, impeachment da Dilma, protestos e até uma guerra civil são ideias que já começaram a ser perigosamente difundidas na internet. Note que essas ideias golpistas no Brasil sempre proliferaram da direita, que adora inventar que a esquerda é que queria impor ditaduras por aqui. A verdade é que a direita não gosta da democracia quando perde uma eleição e ela sempre foi e sempre será separatista, fascista e reacionária. A xenofobia, o racismo disfarçado e o bairrismo infantil que explodiram no final das eleições mostram como a direita é intolerante, medrosa e raivosa. E isso que eu digo não é uma "manipulação maniqueísta", porque quem tem dado mal exemplo foi justamente o pessoal que defendeu o neoliberalismo do PSDB.

He-man e She-ha dando aula de política às olavettes

As mentiras da direita
Muitos direitistas, para não perder o costume, continuam a espalhar mentiras e distorções na internet, alegando (sem qualquer evidência) que o Foro de São Paulo é um esquema para implantar o comunismo, que o Brasil vai virar Cuba, que vivemos numa ditadura bolivariana e outras imbecilidades do gênero. Esse wishful thinking fascistóide é muito perpetuado por conspiracionistas malucos como Olavo de Carvalho que acham que ainda vivemos na Guerra Fria e esquecem que com a internet por perto é impossível que a grande mídia faça lavagens cerebrais nas pessoas. E lamento informar aos saudosistas do regime militar, mas uma ditadura não funcionaria sem acabar com a internet - fora que os EUA não estão interessados em uma nova operação Brother Sam, sem a qual não teria ocorrido o Golpe de 1964 por aqui. E a ideia de impeachment contra o PT também não daria certo, porque o vice de Dilma Rousseff é o Michel Temer, do PMDB, aliado do PT. Ou seja, seria trocar seis por meia dúzia. Já quanto a possibilidade de uma guerra civil separatista, também lamento informar que não daria certo, porque as Forças Armadas e policias são subordinadas ao Estado e eles não organizariam um levante contra o mesmo (sem falar que a constituição de 1988 considera inconstitucional qualquer movimento separatista).
O que esse pessoal inconformado deveria fazer é aprender a perder e entender que a democracia não será destruída mais uma vez por quem nunca teve maturidade política.

Ué, não gostou?
 
Então faz quadradinho de oito!
Rararará!

domingo, 19 de outubro de 2014

Por que não digito 45 nem no microondas


Antes de começar este post, eu quero deixar uma coisa bem clara: não sou militante do PT, não votei no PT no primeiro turno, deixei de votar no PT em duas eleições por conta dos escândalos de corrupção e continuo desaprovando diversas coisas mal feitas pelo Partido dos Trabalhadores. Posto isso, vou explicar por que eu não voto no PSDB de jeito nenhum e por que entre tucanos e petistas, me vejo forçado a votar na segunda opção. Vamos aos principais pontos:

Fidel (com Aécio): "Quem trai o pobre, trai a Cristo."

1 - Questões ideológicas
O PSDB, eu sua raiz ideológica, é um partido social democrata, como sugere sua sigla. E social democracia, para os menos ligados em política, significa ser de centro-esquerda, ou de esquerda moderada. A maior prova disso foi que o ex-presidente do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, foi exilado durante a ditadura militar, foi opositor do regime, defendeu as Diretas Já e foi um forte simpatizante de nomes como Fidel Castro e Hugo Chávez. Porém, como a política brasileira está estruturada para favorecer à elite e aos mais ricos (plutocracia), o PSDB acabou então adotando esses "órfãos" da ditadura militar, recebendo apoio político e econômico das classes dominantes que outrora foram pró-ditadura. O que ocorre hoje é que, por conta disso, o PSDB - apesar de sua simpatia pela esquerda - acabou recebendo um apoio massivo da direita conservadora. E a maior prova disso é que os setores mais reacionários estão apoiando a candidatura do PSDB. Banqueiros, acionistas, conservadores, neoliberais, saudosistas da ditadura militar, olavettes, cristãos fundamentalistas e ultra-nacionalistas acolheram o PSDB e o elegeram para representar os seus anseios políticos.
A moral dessa história foi que os tucanos se venderam ao poder e mudaram de lado no tabuleiro político, tornando-se um partido de centro-direita. O resultado dessa 'virada de casaca' ideológica foi que o PSDB se tornou neoliberal, mefistofélico, defensor das privatizações e do mercado e porta voz dos grupos mais abastados da sociedade que querem manter seus privilégios. A maior prova disso é que o PSDB hoje faz oposição a um partido de centro-esquerda, que é o PT. Eu, como um homem de esquerda, acho inteiramente inimaginável apoiar as propostas claramente neoliberais apresentadas pelo PSDB, por isso me resta o menos ruim, ou seja, o PT.
Ex-membros de partidos de oposição, como um dos co-fundadores do PSDB (Luis Carlos Bresser) e o ex-presidente do PSB (Roberto Amaral), hoje declaram apoio à Dilma Rousseff pelos mesmos motivos que eu, sendo esta a prova de que o PSDB (e o PSB) abandonou as suas origens e não está se comprometendo em reduzir as injustiças e desigualdades sociais, sendo cúmplices de uma plutocracia.

Pastor Feliciano: Diga-me com quem andas que eu te direi quem és

2 - Os reaças estão com os tucanos
Os reacionários de direita (coxinhas) estão votando em massa no PSDB porque eles têm bons motivos para odiarem o PT. Muitos deles, como Paulo Eduardo Martins, Rachel Sheherazade, Lobão, Olavo de Carvalho, Marco Feliciano, Silas Malafaia, Jair Bolsonaro, Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino são paranóicos e estão fazendo o jogo que a direita sempre fez, que é de tentar convencer a grande massa menos politizada que o PT é um grande monstro a ser derrotado. Justamente pela (má) influência dessa gente é que vemos aberrações como pessoas pobres votando em candidatos da direita - ou simpatizando com os mesmos por medo de um fantasioso "Golpe Comunista dos petralhas". Infelizmente, o Brasil é um dos poucos países do mundo onde o pobre vota massivamente na direita, escolhendo assim - com o perdão da expressão - o cachimbo ideal para levar fumo.
Outro grupo pró-tucanos é a nossa "querida" elite. A elite brasileira é uma das mais detestáveis do planeta, porque apesar de viver num país de grandes contrastes sociais, só pensa em ficar mais rica, mais poderosa e em ver os mais humildes mais ferrados para poder sustentar os seus luxos. É impressionante a falta de empatia, a avareza e a soberba de pessoas que defendem uma pseudo meritocracia e o liberalismo econômico somente para manter seu poder e seu esnobismo. Os programas sociais do PT simplesmente criam pânico nessa gente por elas verem que agora os pobres podem estudar na mesma universidade dos seus filhos, andar no mesmo avião deles e ir estudar no exterior. Fora que essa tal "geração nem-nem" (pobres que nem estudam, nem trabalham) causa neles muito desconforto, porque agora não são apenas os playboyzinhos, patricinhas e filhinhos de papai que sobrevivem sem trabalhar. Daí que culpam os programas sociais e o bolsa-família, alimentando ainda mais essa sanha irracional ao PT.

Já ouvi isso antes...

3 - O PSDB não me traz boas recordações
Sei que esse item é bem clichê, mas eu não tenho nenhuma boa recordação do ponto de vista político dos 8 anos que FHC esteve no poder. Como não quero me estender sobre esse assunto, vou deixar alguns vídeos abaixo que mostram por si só porque o governo do PSDB mais parecia um filme de terror:





4 - Aécio não é flor que se cheire
O candidato tucano diz que é oposição, mas foi a favor do Marco Civil; tentou censurar a internet; teve a carteira de trânsito apreendida por recusar fazer o teste do bafômetro e estar com o documento vencido; agrediu sua acompanhante numa festa; gastou quase 14 milhões para construir um aeroporto no terreno de um parente - isso sem falar na estranha fama que muitos mineiros o deram de "cheirador". Em matéria de boa índole, este está bem aquém do que eu desejaria para um presidente da república.

Fontes:
Sobre o Marco Civil
Sobre a censura da internet
Sobre a CNH apreendida
Sobre a agressão a uma mulher
Sobre o aeroporto
Sobre o helicóptero

Aécio Never

Tópico bônus: Quem vai ganhar essas eleições?
Na minha opinião, quem vai vencer essas eleições, infelizmente, é o PSDB. Não é o que eu quero, mas é o que eu acho que vai acontecer por uma série de razões. A primeira razão foi que o PT perdeu forças relevantes na sua base aliada. Partidos como o PSC e o PSB abandonaram o PT e estão apoiando o PSDB. A segunda razão pela qual o PT provavelmente vai sair derrotado é que houve um racha no PMDB, onde a decisão de apoiar o PT em 2014 foi muito controversa, sendo que quase metade do PMDB não vota no PT. A última razão pela qual eu acho que o PSDB vai vencer é a forte rejeição que o PT tem, especialmente entre a classe média mais abastada. Vai ser uma vitória apertada, mas acho difícil que o PSDB perca dessa vez. Espero que eu esteja bastante errado...

Os reaças estão com a faca e o queijo na mão

Se realmente for eleito, desejo ao candidato Aécio um bom mandato e que ele possa corrigir os erros de administração do PT, mas tenho poucas esperanças que ele possa dar continuidade à redução das desigualdades econômicas iniciadas pelo governo Lula porque ele é um neoliberal. Também tenho poucas esperanças que ele e seus ministros (ah, Armínio Fraga!) tenham discernimento necessário para evitar todas as lambanças feitas por FHC. O meu temor em um governo tucano é o desemprego, arrocho salarial, juros altos e acentuação das desigualdades. Portanto, é bom lembrar que a vida de Aécio Neves não será fácil como presidente, porque o congresso nacional tem a maioria de oposição ao seu partido e também quase metade dos brasileiros não deu seu voto a ele. Espero que ele governe não apenas para os que o elegeram, mas para todos os brasileiros.
E para finalizar, uma frase do nosso querido Chico, que sintetiza em poucas palavras o verdadeiro significado do confronto entre PT e PSDB nessas eleições:


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Uma Luciana incomoda muita gente...


Toma!
Um fato que me chamou atenção nessas eleições de 2014 foi o rebuliço que a candidata Luciana Genro, do PSOL, causou nos meios de comunicação e, sobretudo, nos conservadores de direita. Um exemplo disso foi o blog da Veja, onde o colunista Rodrigo Constantino dedicou vários posts para criticar a candidata. Entre as muitas críticas, vi coisas bem clichês, como a suposta "simpatia" da candidata por regimes de esquerda, que ela faz parte da "esquerda caviar", que suas ideias são "insanas demais", que ela é uma "linha auxiliar do PT", que ela é uma "filhinha de papai mimada", que ela é louca, etc. Ora, para um partido pequeno como o PSOL estar ganhando tanta atenção assim - especialmente da oposição de direita - é porque algo nele está incomodando bastante.
Apesar de ter recebido menos de 2% dos votos, a candidata do PSOL conseguiu abordar vários temas polêmicos e atacou diretamente os interesses das grandes corporações (quem não se lembra quando a Luciana atacou a Globo no próprio debate da Globo?). Isso, sem dúvida, foi algo que muitos socialistas sempre quiseram fazer, mas nunca tiveram oportunidade ou coragem para tal. Esse comportamento revolucionário da Genro provavelmente suscitou em muitos reacionários o velho medo do bicho-papão comunista que se esconde debaixo da cama deles. Interessante notar também que uma parte do ódio irracional ao PT também foi direcionado para o PSOL por conta da postura antifascista que o partido têm tomado nessas eleições. Isso tudo mostra mais uma vez que os reacionários de direita estão com um pouquinho de receio do pequeno PSOL, parecendo esse embate uma espécie de duelo entre Davi e Golias. A grande verdade nisso tudo é que o socialismo destrói as grandes fortunas, o individualismo e a cultura consumista. Os reaças morrem de medo que o país acorde, por isso o PT e o PSOL são tão odiados por essa gente. Essa é a razão pela qual o PSOL está sendo tão criticado por essa turminha que só sabe falar de meritocracia, privatizações e livre mercado.

Toma você também!

E tome mais!
Agora falando em termos de realidade, é claro que o PSOL é um partido que precisa amadurecer, saber fazer alianças e parar de se agarrar a utopias marxistas que nunca deram certo. Também é necessário que o partido foque em questões de interesse da grande massa, porque a maioria da população proletária não está querendo saber de utopias ou de revoluções socialistas, mas sim de melhorar a qualidade de vida. Eu votei na Luciana Genro no primeiro turno como protesto e também por sua coragem em abordar temas mais "polêmicos", como os direitos dos LGBT - porém reconheço que ainda é necessário um grande salto de qualidade para que em outras eleições o PSOL tenha chances reais de disputar a presidência.
Mas o que realmente deve preocupar os comunistofóbicos é que a Luciana Genro não é a única a querer socialismo com liberdade. Foram mais de 1,6 milhões de pessoas que compartilharam com os seus ideias ao digitar 50 na urna eletrônica - e a tendência é que esse número aumente ainda mais nas próximas eleições. Se uma Luciana sozinha incomoda muita gente, imagine mais de um milhão e meio de 'Lucianas'?
Não gostou? Então #chupareaça!

E aí, vai encarar?

sábado, 11 de outubro de 2014

PT vs PSDB: a velha polarização está de volta


No post anterior, eu havia dito que não falaria sobre política em época de eleição, mas já que o primeiro turno acabou e a minha candidata está fora, não vejo mais sentido em me manter silêncio sobre o tema. Neste post, eu pretendo traçar um paralelo entre PT e PSDB, mostrando os prós e contras de cada lado e abordar diretamente sobre alguns aspectos dessa polarização que já dura 20 anos.

PSDB - Os prós
Quando FHC assumiu a presidência em 1995, o Brasil estava atravessando uma forte instabilidade econômica e vinha de vários planos econômicos fracassados (cruzeiro e cruzado). O PSDB conseguiu a façanha de manter a moeda estabilizada diante de turbulências e de dificuldades diversas. Tivemos também os programas Bolsa-Escola e o Auxílio-Gás, que beneficiaram muita gente carente. Além disso, a economia mais aberta do governo FHC foi responsável por algumas privatizações importantes, como a da Telebrás. O ponto mais forte do PSDB durante os 8 anos no poder foi o aspecto econômico, que, apesar dos altos e baixos, no geral, conseguiu evitar que uma super inflação voltasse a causar terror no país.

PT - Os prós
O grande feito do PT foi o assistencialismo e a redução sistemática das desigualdades sociais. Programas como o Bolsa-Família, o Luz Para Todos, o ProUni, o Mais Médicos, o Minha Casa Minha Vida, o Pronatec, o Fies, o Ciência sem Fronteiras, as cotas em Universidades e o aumento expressivo na quantidade de Universidades Federais mostraram que o PT não estava para brincadeira. Fora que o Brasil pagou a sua dívida com o FMI, os aumentos salariais passaram a ser mais expressivos, milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza e as empregadas domésticas tiveram leis que as tratassem como trabalhadoras e não mais como semiescravas.

PSDB - Os contras
Quem não tem memória curta deve lembrar bem que durante os 8 anos de FHC tivemos muito, mas muito desemprego, aumentos ridículos no salário mínimo, escândalos de corrupção abafados, crise energética, ameaça de apagão, baixo investimento em educação, o país teve que recorrer várias vezes ao FMI e até os aposentados foram chamados de "vagabundos" pelo próprio FHC. Mas a maior lambança que o governo do PSDB fez mesmo foi a privatização da Vale do Rio Doce. A Vale foi subavaliada e vendida a um preço muito abaixo do custo sob a suspeita de vários escândalos.

PT - Os contras
As alianças feitas pelo PT e o financiamento de megaempreiteras acabaram deixando o atual governo refém de um centrismo político que acabou mantendo os privilégios dos 1% mais ricos e da elite burguesa. Entre os aliados bisonhos que o PT conquistou, tivemos nomes como Maluf, Sarney, Calheiros e Collor, que por si sós já são autoexplicativos. Infelizmente, o PT continuou seguindo a linha conservadora dos antecessores, sem sequer abordar os temas progressistas. E, claro, tivemos inúmeros escândalos, como o Mensalão e a corrupção nos Correios e na Petrobrás. O PT foi responsável também pela criação e aprovação do Marco Civil da Internet, que na minha opinião foi uma anedota que favorece a possíveis censuras e - falando em censura - algumas emissoras de TV afastaram alguns de seus funcionários por terem contrariado ou criticado o governo. Outro ponto que raramente vejo ser debatido sobre o PT é a eternidade que a transposição do Rio São Franscisco tem levado para ser concluída, o que aumenta o orçamento e adia algo que era para ter sido terminado há tempos.

Pois é, não tem virgem na zona...


Colocando na balança
Fazer comparações entre esses os dois partidos é algo que exige um pouco de cautela pelo fato deles terem administrado o país em momentos sociais e econômicos muito diferentes. No governo FHC, a prioridade era controlar a inflação; já no governo Lula, a prioridade era erradicar a miséria (lembra do Fome Zero?) e melhorar a vida dos mais carentes. As metas principais dos dois partidos foram cumpridas, ao menos parcialmente. Só que o grande problema dessas comparações com o passado é que agora as prioridades do PSDB mudaram. Ao consultar o atual plano de governo do PSDB, há mudanças positivas que o governo FHC nunca ousou por em pauta. E devido à aliança com partidos muito diferentes entre si, como o PSC e o PV, o plano de governo tucano teve que se modificar até agradar a gregos e troianos. O PT, por sua vez, conseguiu reduzir substancialmente a pobreza e a miséria e tem demonstrado que vai persistir nessa meta, mas também teve que agradar a gregos e troianos devido às suas alianças partidárias, deixando muitas pautas esquecidas.
A impressão que fica para mim, no fim das contas, é que PT e o PSDB, apesar das diferenças, têm sido o mesmo produto, mas com embalagens diferentes, uma vez que ambos estão pendendo cada vez mais ao centrismo político em suas alianças e em seus projetos. Ambos fizeram coisas boas e coisas ruins, mas nenhum dos dois representa uma verdadeira mudança. Por mais que a direita vote no PSDB e a esquerda vote no PT, nenhum dos dois partidos possui mais fidelidade às suas raízes ideológicas e nem representa aquela velha polarização entre direita e esquerda.

Tipo de comentário recorrente após as eleições

Sobre a xenofobia
Quem não vive em outro planeta viu que pipocaram nas redes sociais diversos comentários xenofóbicos e bairristas sobre o resultado das eleições para presidente. Enquanto que o sul, sudeste e centro-oeste votaram majoritariamente no PSDB; o nordeste e o norte votaram em peso no PT. Isso causou uma ira muito grande dos anti-PT contra o nordeste, rendendo comentários preconceituosos sobre as regiões onde o PT foi maioria. O preconceito contra nordestinos e nortistas, que é bem antigo, se tornou mais evidente após saírem os resultados dos presidenciáveis por estado. O que esses bairristas não levam em consideração é que no Rio, em Minas e no Rio Grande do Sul, o PT saiu vitorioso - enquanto que em Pernambuco e no Acre, o PT saiu derrotado. E mesmo que todo o norte e nordeste tivessem votado em Dilma, esse tipo de reação preconceituosa não se justificaria. E para piorar, o próprio ex-presidente FHC soltou mais uma de suas pérolas: "O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados". Discordo que a frase do ex-presidente seja ofensiva ou preconceituosa, até porque realmente foram as pessoas de mais baixa renda que votaram no PT. O problema é que os eleitores do PT não são menos informados - muito pelo contrário - eles são bem informados. Basta ver como o PT melhorou a vida das pessoas mais pobres através de todo o assistencialismo que reduziu (mesmo que suavemente) as injustiças sociais. Pessoas mais pobres de todo o país votaram no PT justamente porque melhoraram de vida, e não por serem menos informadas. E se você acha que só gente "ignorante" vota no PT, acho que deveria perguntar isso a nomes como Chico Buarque, Leonardo Boff, Marilena Chaui e Chico César.

"Aqueles que dizem que aqui estão as pessoas com menos compreensão, com menos educação, que não sabem votar é porque não acompanharam tudo o que vem acontecendo aqui nesta região do Brasil. Nós olhamos com atenção especial pra essa região do país que foi tradicionalmente prejudicada por uma visão elitista do Brasil" (Dilma, sobre o nordeste)

O PT reduziu as desigualdades no nordeste

No caso do nordeste, segundo cálculos do Banco Central, a economia da região cresceu 2,55% no segundo trimestre do ano, na comparação com o primeiro – que já havia mostrado expansão de 2,12%. O nordeste também passou a ter mais indústrias, mais empregos, mais renda e menos gente na miséria - mudanças estas que reduziram o fluxo migratório para o eixo Rio-São Paulo em busca de empregos e melhor qualidade de vida. Tudo isso culminou numa maior votação no PT, porque comparando com os governos anteriores, o PT fez muito mais por essa gente, como explica essa página.

"As pessoas que falam mal do Nordeste não conhecem a região. Dizem que aqui as pessoas são desinstruídas. Nunca estiveram aqui, não sabem que o povo nordestino é mais compreensivo e desconhecem a revolução que aconteceu no Nordeste. Vocês têm que superar esta visão porque o Nordeste cresceu muito nos últimos 12 anos" (Dilma, ainda sobre o nordeste)

Maior medo da elite: ver todo mundo rico

Sobre a elite brasileira
A elite brasileira é a mais mesquinha e detestável do mundo, pois ela é esnobe, conservadora, egoísta, egocêntrica, preconceituosa, sádica, fanática, corruptora, fascista, plutocrata e teocrática. Os membros dessa elite não estão nem aí para o povo ou para o país, só pensam no próprio umbigo. Basta ver que muitos elitistas têm raiva do PT porque agora os pobres estão crescendo, mudando de vida e ameaçando o status dessa gente esnobe. Aécio Neves, o seu PSDB e aliados, queiram ou não, são os representantes mais diretos dos interesses dessa classe dominante e do imperialismo na América Latina. O PSDB, que foi social-democrata em sua origem, hoje se tornou praticamente neoliberal e representante da burguesia. O plano de governo "desburocratizador" do PSDB não é ruim em si, mas peca por apresentar propostas que não são adequadas para um país subdesenvolvido (ou emergente), como é o caso do Brasil. Esse liberalismo econômico camuflado funciona melhor em países mais ricos e com menos desigualdades, mas querer essa política num país de grandes desigualdades é extremamente prejudicial, especialmente para os mais pobres. É por isso que toda a turminha da ala da direita conservadora apoia integralmente o PSDB, apesar do PSDB ser, na visão deles, um partido de "esquerda". Nessa turminha da direita conservadora estão a elite burguesa, a classe média fascista, os neoliberais, os coxinhas e as olavettes. Por mais que neguem, eu vi com os meus próprios olhos que governo do PSDB foi voltado durante os oito anos para a elite. O vídeo abaixo mostra bem como é essa gentalha metida a socialite que vive vociferando dementemente contra o PT:


Claro que entre os eleitores de Aécio há pessoas politizadas e conscientes de sua posição ideológica que votam nele por convicção. A esses não tenho nenhuma crítica porque Aécio é o candidato certo para eles. O que me incomoda mesmo é que entre os que votam no Aécio há aqueles que o fazem apenas por ser anti-PT. O cidadão votar no PSDB porque se identifica, acredita no Aécio, vá lá, mas votar contra só porque está de birra e quer ver a cara do outro quando perder é brincar com o seu futuro e o futuro do país. Esse tipo de voto de gente que só sabe gritar: "Fora petralhaaa!" é uma vergonha total, porque eles se comportam como uma manada de despolitizados sem qualquer consciência ideológica ou partidária que escolheu o PSDB como voto de protesto.
Apesar da maioria das pessoas que votam no PSDB estarem ávidas por mudanças para melhor, creio eu que devido às múltiplas concessões dos tucanos feitas em suas alianças e também pelos rachas ideológicos internos, o PSDB vai mudar muito pouco: isso se de fato mudar para melhor.

Tudo isso para terminarmos na mesma?

Sobre a necessidade de mudança
A maioria do povo votou em candidatos de oposição, o que mostra que há uma grande insatisfação com o que aí está. Partidos que permanecem muito tempo no governo tendem a se acomodar e a fazer chantagens para permanecer no poder. O que o Brasil precisa é de uma grande faxina política, mas trocando o PT pelo PSDB há muito pouco a mudar, porque ainda que sejam diferentes entre si, ambos partidos foram seduzidos para um centrismo corrupto. Mas como no segundo turno não há muita escolha, temos que nos conformar em votar no menos pior. Eu, que sou esquerda de coração, não apoiaria jamais um tucano para presidência, então o que resta para mim é escolher mais uma vez entre o PT ou o voto nulo. Afinal, o PT fez muita coisa errada, detestei e me decepcionei com várias coisas feitas pelo partido, mas o PSDB foi infinitamente pior, pelo menos do ponto de vista ideológico e prático. Ao menos o PT tirou muita gente da miséria absoluta, deu a essa gente a chance de ter uma casa própria e estudar numa universidade - coisas que o PSDB nunca chegou perto de fazer.

E para quem não está satisfeito com nenhuma das duas opções, a solução é se mudar do país.